sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A ELITE DO SABER 1/3 PESQUISA FAPESP

A elite do saber
Estudo analisa perfil intelectual da classe dirigente brasileira
Pesquisa FAPESP -
Este é o século da elite do saber, e não apenas da elite do berço e sobrenome”, disse, recentemente, o presidente Lula, anunciando planos futuros para a educação. A frase é de uma correção impecável, mas não anuncia nenhuma novidade, pois há várias décadas o Estado brasileiro vem se esforçando para que o novo século ganhe esse status. “As análises de nosso trabalho revelam que o campo do poder no Brasil se diversificou com os investimentos intelectuais, os quais ganharam uma autonomia em relação aos recursos econômicos, sociais e políticos das famílias de origem dos estudantes. Há tempos o Estado cria oportunidades para que os universitários de origem mais modesta possam ascender ao mundo internacional do saber e ganhar instrumentos que permitam a eles rivalizar com as elites tradicionais”, afirma a historiadora Letícia Bicalho Canêdo, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e diretora do Focus (Grupo de Estudos sobre Instituição Escolar e Organizações Familiares), onde coordena o projeto temático Circulação internacional e formação dos quadros dirigentes brasileiros, com apoio da FAPESP. O projeto pretende conhecer quem são os formadores de políticas públicas e como são alocados os recursos sociais e institucionais que capacitaram esses indivíduos a participar das práticas de negociação do mundo globalizado. “Sabemos que a maioria dos altos postos políticos de hoje são ocupados por pessoas que estudaram no exterior e em universidades de ponta. Basta lembrar nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Marta Suplicy, para citar alguns, e verificar que boa parte da nossa elite dirigente passou por uma especialização internacional.” A pesquisadora explica que o estudo pretende se juntar àqueles que desejam compreender o sentido do “projeto universalista”, ou “globalização”, em particular no estabelecimento de princípios de ação e modos de governo “universalistas”. “Queremos investigar os ‘tradutores desse universo’, os indivíduos e redes que operam para a concretização desse projeto universalizante nos organismos intergovernamentais, associações internacionais, ONGs, universidades e sociedades profissionais.” Assim, ao circular internacionalmente e trazer visões e princípios para o seu país de origem, esses quadros difundem esses valores universais e os adaptam aos sistemas locais. “A idéia é analisar tanto a elite que ascende pela ‘grande porta’ de um título internacional, e com isso reivindica para si cargos de autoridade, como todos que, com um diploma local, estariam sendo colocados, por essa razão, em carreiras de segunda classe”, analisa. A partir desse viés, será possível, acredita a pesquisadora, entender a participação das elites na construção e modernização do Estado brasileiro a partir de suas experiências individuais. “Estamos falando de uma competição baseada não em países, mas em pessoas de carne e osso. Isso é fundamental quando se vive um momento de globalização que visa estabelecer modos de governo com pretensões planetárias, um dispositivo hegemônico que vai ser o centro da reprodução das elites nacionais dos países periféricos.” Ou seja, será possível saber como títulos universitários, conhecimentos técnicos, contatos, recursos, prestígio e legitimidade adquirida no exterior para construir carreiras no país de origem reforçam, no campo nacional, a posição dominante dos que podem valorizar o seu pertencimento às redes internacionais do establishment (entenda-se: Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional etc.). Missão - Mas, a se acreditar na sabe-doria popular do “é de pequenino que se torce o pepino”, o início desse macroprocesso global se dá no mundo “micro” das escolas e das famílias. “A escola é investida de uma dupla missão: gerar a força de trabalho demandada pelo espaço de produção econômica e também os agentes socialmente inseridos, ou seja, inseridos numa cultura demandada pelos grupos familiares”, explica Ana Maria Fonseca de Almeida, pesquisadora do projeto. Dessa maneira, a escola tem um papel não apenas técnico, mas simbólico, pois será nesse ambiente que os jovens formam um círculo de amizades que será uma rede de apoio, bem como aprendem saberes outros que os escolares, ligados ao social: como gerenciar um grupo e liderá-lo. “Nossa preocupação não é ter a educação das elites como modelo, mas saber como ela é usada para manter as posições de poder na sociedade e estudá-la para observar as desigualdades sociais. Afinal, cada país ‘inventa’ a sua tradição de educação”, observa.Daí, por exemplo, lembra a pesquisadora, a nova visão da competência em língua portuguesa, hoje menos ligada à gramática e mais à capacidade do aluno de interpretar o mundo. O que não impede, é claro, o interesse sempre renovado no inglês, idioma fundamental na circulação internacional. Mas qual é a novidade? As elites nacionais sempre deram valor ao aprendizado de línguas e às estadias no exterior para criação de uma educação cosmopolita. “A partir dos anos 1950, mais intensamente nos anos 1980, se desenvolveu uma política voluntarista de apoio aos intercâmbios com a concessão de bolsas por agências de financiamento à pesquisa, que alterou de forma radical o recrutamento social dos efetivos que partem para o exterior. Viagens internacionais de estudo, hoje, não são apanágios apenas de elites familiares endinheiradas”, analisa Letícia.
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3640&bd=1&pg=1&lg=

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