A elite do saber
Edição Impressa 151 - Setembro 2008
A educação cada vez mais foi se consolidando em “questão de Estado”. “A qualificação de professores e pesquisadores num país como o Brasil, de formação colonial peculiar que não estimulou a formação autóctone de intelectuais, não pôde ser realizada plenamente com os meios internos”, observa Carlos Roberto Jamil Cury, também do Focus. “Portanto, a tradição de formação de elites intelectuais fora do país não é tão recente assim. O que vem sendo feito nos últimos 35 anos é, de certo modo, a ampliação consciente e programada de uma tradição antiga por meio da qual o poder público sempre buscou a qualificação de professores e pesquisadores no exterior.” Esse processo se consolida a partir de 1946, quando a Constituição estadual paulista torna gratuito todo o ensino público, inclusive o superior. “Assim, a partir dos anos 1950, verificou-se uma expansão das instituições e, acima de tudo, um papel mais forte do Estado na sua manutenção. É o período da federalização das escolas superiores e sua aglutinação em universidades.” É a quebra do poder familiar, cujos filhos, agora, são levados à escola para receber uma educação dada por especialistas certificados pelo Estado. Dois movimentos externos se jun-tariam a esse impulso interno. O primeiro é o surgimento da teoria do capital humano, de 1960, que sugere que investimentos na educação geram benefícios para indivíduos e sociedades, o que transforma o ensino em fator de desenvolvimento econômico, o que eleva o interesse do saber pelo Estado, que, por essa razão, passa cada vez mais a colocar economistas como os novos gestores da educação. O outro, mais prosaico, foi a Guerra Fria, que, nota Letícia, “reforçou a concorrência entre as nações pelo monopólio dos avanços científicos, o que hierarquizou os países que possuíam menos ou mais inserções em cada domínio do saber na cena internacional”. O poder político nacional e internacional não era mais completo se não fosse fundamentado num sistema de produção e transmissão de conhecimentos científicos e tecnológicos. “No Brasil, a criação, em 1951, das primeiras agências nacionais de apoio à pesquisa, o CNPq e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), permite aos brasileiros participar do curso científico induzido e acelerado pela Guerra Fria.” No caso do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) , nota Letícia, sua criação ligou-se diretamente ao uso da energia nuclear, o que explica por que seus primeiros dirigentes foram escolhidos dentre as Forças Armadas. Já a Capes deveu-se à iniciativa do educador Anísio Teixeira, pessoalmente um adepto das viagens de saber internacionais, que pretendeu com isso diminuir o atraso do sistema educativo nacional ante as grandes potências científicas por meio da cooperação internacional. Na prática escolar, nota a pesquisadora, isso significou uma ruptura com o sistema brasileiro de formação tradicional, calcado em escolas católicas, para assumir, a partir de então, um caráter associado aos paradigmas externos. “Além disso, a criação das instituições aumentou a possibilidade da formação no exterior, inaugurando uma política pública de atribuição de bolsas determinada a dotar o Brasil de recursos humanos de alto nível”, observa a pesquisadora. O Estado coloca sob sua responsabilidade a formação da nova elite científica, não mais apenas restrita a elites familiares. “Isso também se consolida com a criação, em 1962, da FAPESP, um organismo estadual a se juntar aos esforços dos dois outros, federais, visando a possibilitar uma experiência direta dos pesquisadores com as práticas culturais e científicas de vanguarda internacional.” Ao mesmo tempo, incentivou-se, nos anos 1950 e 1960, com a implantação de mestrados e doutorados, a criação de um corpo permanente de cientistas no país. “Os inícios da pós-graduação associavam o Estado, o progresso da ciência e a busca de referências internacionais de conhecimento. O Estado vai-se impondo como garantia do desenvolvimento científico, visto como fundamental para a busca da autonomia nacional”, nota Cury. Autônomo - Esse movimento se mantém, ou mesmo cresce, até durante períodos de exceção, como a ditadura militar, afinal o “Brasil potência” deveria ser visto como tal por brasileiros e estrangeiros. A teoria do capital humano foi levada ao pé da letra. “A modernização conservadora pretendida exigia urgência por determinadas áreas que só poderiam se consolidar com doutores formados no exterior. A pós-gradução assume uma posição estratégica no âmbito educacional e também nos termos do modelo de desenvolvimento do país”, nota Cury. “Nessa ação deliberada do Estado, o envio de professores para o exterior constitui um patamar básico para a disseminação endógena de programas de mestrado e doutorado no país e para sua consolidação qualificada. Assim, o papel da pós-gradução no exterior ganhou um papel importante: a de ser um momento formativo, a fim de possibilitar o desenvolvimento autônomo da pós no país.” Hoje, continua o pesquisador, passada a necessidade do impulso inicial, há um recuo das agências em financiar doutorados plenos no exterior, com preferência por pós-doutorados e por “bolsas-sanduíches”, mais curtas e, em geral, menos dispendiosas.
Edição Impressa 151 - Setembro 2008
A educação cada vez mais foi se consolidando em “questão de Estado”. “A qualificação de professores e pesquisadores num país como o Brasil, de formação colonial peculiar que não estimulou a formação autóctone de intelectuais, não pôde ser realizada plenamente com os meios internos”, observa Carlos Roberto Jamil Cury, também do Focus. “Portanto, a tradição de formação de elites intelectuais fora do país não é tão recente assim. O que vem sendo feito nos últimos 35 anos é, de certo modo, a ampliação consciente e programada de uma tradição antiga por meio da qual o poder público sempre buscou a qualificação de professores e pesquisadores no exterior.” Esse processo se consolida a partir de 1946, quando a Constituição estadual paulista torna gratuito todo o ensino público, inclusive o superior. “Assim, a partir dos anos 1950, verificou-se uma expansão das instituições e, acima de tudo, um papel mais forte do Estado na sua manutenção. É o período da federalização das escolas superiores e sua aglutinação em universidades.” É a quebra do poder familiar, cujos filhos, agora, são levados à escola para receber uma educação dada por especialistas certificados pelo Estado. Dois movimentos externos se jun-tariam a esse impulso interno. O primeiro é o surgimento da teoria do capital humano, de 1960, que sugere que investimentos na educação geram benefícios para indivíduos e sociedades, o que transforma o ensino em fator de desenvolvimento econômico, o que eleva o interesse do saber pelo Estado, que, por essa razão, passa cada vez mais a colocar economistas como os novos gestores da educação. O outro, mais prosaico, foi a Guerra Fria, que, nota Letícia, “reforçou a concorrência entre as nações pelo monopólio dos avanços científicos, o que hierarquizou os países que possuíam menos ou mais inserções em cada domínio do saber na cena internacional”. O poder político nacional e internacional não era mais completo se não fosse fundamentado num sistema de produção e transmissão de conhecimentos científicos e tecnológicos. “No Brasil, a criação, em 1951, das primeiras agências nacionais de apoio à pesquisa, o CNPq e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), permite aos brasileiros participar do curso científico induzido e acelerado pela Guerra Fria.” No caso do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) , nota Letícia, sua criação ligou-se diretamente ao uso da energia nuclear, o que explica por que seus primeiros dirigentes foram escolhidos dentre as Forças Armadas. Já a Capes deveu-se à iniciativa do educador Anísio Teixeira, pessoalmente um adepto das viagens de saber internacionais, que pretendeu com isso diminuir o atraso do sistema educativo nacional ante as grandes potências científicas por meio da cooperação internacional. Na prática escolar, nota a pesquisadora, isso significou uma ruptura com o sistema brasileiro de formação tradicional, calcado em escolas católicas, para assumir, a partir de então, um caráter associado aos paradigmas externos. “Além disso, a criação das instituições aumentou a possibilidade da formação no exterior, inaugurando uma política pública de atribuição de bolsas determinada a dotar o Brasil de recursos humanos de alto nível”, observa a pesquisadora. O Estado coloca sob sua responsabilidade a formação da nova elite científica, não mais apenas restrita a elites familiares. “Isso também se consolida com a criação, em 1962, da FAPESP, um organismo estadual a se juntar aos esforços dos dois outros, federais, visando a possibilitar uma experiência direta dos pesquisadores com as práticas culturais e científicas de vanguarda internacional.” Ao mesmo tempo, incentivou-se, nos anos 1950 e 1960, com a implantação de mestrados e doutorados, a criação de um corpo permanente de cientistas no país. “Os inícios da pós-graduação associavam o Estado, o progresso da ciência e a busca de referências internacionais de conhecimento. O Estado vai-se impondo como garantia do desenvolvimento científico, visto como fundamental para a busca da autonomia nacional”, nota Cury. Autônomo - Esse movimento se mantém, ou mesmo cresce, até durante períodos de exceção, como a ditadura militar, afinal o “Brasil potência” deveria ser visto como tal por brasileiros e estrangeiros. A teoria do capital humano foi levada ao pé da letra. “A modernização conservadora pretendida exigia urgência por determinadas áreas que só poderiam se consolidar com doutores formados no exterior. A pós-gradução assume uma posição estratégica no âmbito educacional e também nos termos do modelo de desenvolvimento do país”, nota Cury. “Nessa ação deliberada do Estado, o envio de professores para o exterior constitui um patamar básico para a disseminação endógena de programas de mestrado e doutorado no país e para sua consolidação qualificada. Assim, o papel da pós-gradução no exterior ganhou um papel importante: a de ser um momento formativo, a fim de possibilitar o desenvolvimento autônomo da pós no país.” Hoje, continua o pesquisador, passada a necessidade do impulso inicial, há um recuo das agências em financiar doutorados plenos no exterior, com preferência por pós-doutorados e por “bolsas-sanduíches”, mais curtas e, em geral, menos dispendiosas.
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