sexta-feira, 26 de setembro de 2008

EU, ETIQUETA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Em minha calça estĂĄ grudado um nome que nĂŁo Ă© meu de batismo ou de cartĂłrio, um nome... estranho. Meu blusĂŁo traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nesta vida. Em minha camiseta, a marca de cigarro que nĂŁo fumo, atĂ© hoje nĂŁo fumei. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei, mas sĂŁo comunicados a meus pĂ©s. Meu tĂȘnis Ă© proclama colorido de alguma coisa nĂŁo provada por este provador de longa idade. Meu lenço, meu relĂłgio, meu chaveiro, minha gravata e cinto , escova e pente, meu copo, minha xĂ­cara, minha toalha de banho e sabonete, meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, sĂŁo mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidĂȘncia, costume, hĂĄbito, premĂȘncia, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anĂșncio itinerante, escravo da matĂ©ria anunciada. Estou, estou na moda. É doce estar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade, trocĂĄ-la por mil, açambarando todas as marcas registradas, todos os logotipos do mercado. Com que inocĂȘncia demito-me de ser eu que antes era e me sabia tĂŁo diverso de outros, tĂŁo mim-mesmo, ser pensante, sentiste e solidĂĄrio com outros seres diversos e conscientes de sua humana, incrĂ­vel condição. Agora sou anĂșncio, ora vulgar ora bizarro, em lĂ­ngua nacional ou em qualquer lĂ­ngua (qualquer, principalmente). E nisto me comprazo, tiro glĂłria de minha anulação. NĂŁo sou - vĂȘ lĂĄ - anĂșncio contratado. Eu Ă© que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares festas praias pĂ©rgulas piscina, e bem Ă  vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandĂĄlia de uma essĂȘncia tĂŁo viva, independente, que moda ou suborno algum compromete. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tĂŁo pessoais, tĂŁo minhas que no rosto se espelhava, e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa resumia uma estĂ©tica? Hoje sou costurado, sou tecido, sou gravado de forma universal, saio da estamparia, nĂŁo de casa, da vitrina me tiram, recolocam objeto pulsante, mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estĂĄticos, tarifados. Por me ostentar assim, tĂŁo orgulhoso de ser nĂŁo eu, mas artigo industrial peço que meu nome retifiquem. JĂĄ nĂŁo me convĂ©m o tĂ­tulo de homem. Meu nome novo Ă© coisa. Eu sou a coisa, coisamente.

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