sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A ELITE DO SABER 3/3

Elite do saber
Edição Impressa 151 - Setembro 2008
Ampliou-se igualmente o espectro de auxílios. “Como as agências progressivamente incorporaram todas as disciplinas científicas e culturais aos seus programas, para além das chamadas ciências ‘duras’ ou exatas, a intervenção delas abriu a oportunidade de carreiras de substituição para novas gerações de pesquisadores, dentre os quais boa parte deles não tem um capital social equivalente àquele das elites tradicionais”, completa Letícia. Logo, a seleção dos candidatos a sair do país passa a ficar sob o controle da comunidade científica, diminuindo o clientelismo político, fato de importância decisiva na mudança da composição social dos universitários em circulação internacional e no desenvolvimento científico e político do Brasil. “Foi graças a essa política que o Brasil teve a capacidade de assimilar quase instantaneamente uma tecnologia relativamente nova, ao menos para o país, a saber, aquela do seqüenciamento genético”, elogiou André Gof-feau, pesquisador do Instituto Curie e diretor do projeto de seqüenciamento do genoma da levedura. “O Estado brasileiro, por meio desses mecanismos, vem sustentando, desde 1970, a reconversão das elites dirigentes”, afirma Letícia. Que não se restringem apenas ao espaço acadêmico, mas saem dele para levar suas idéias à sociedade. “Basta ver como essa nova reserva de professores universitários vai contribuir, a partir do mesmo período, para o reforço de uma elite política interessada na construção de um novo espaço de poder. A intenção deles é determinar como deve ser a sociedade brasileira e, para tanto, escolheram representantes ativos em diferentes setores sociais aptos a fornecer um projeto de sociedade”, analisa Ana Paula Hey, outra das pesquisadoras do temático. Segundo ela, o grupo se concentrou, inicialmente, em torno da USP e, dentro da universidade, do Nupes (Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior), que, em comum, têm o fato de serem altamente qualificados e terem passado à ação no espaço político, beneficiando-se das diversas formas de capital adquirido, reconvertido em benefício da produção e da concretização de suas idéias no mundo social. “É importante lembrar também o grupo do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), de onde saíram políticos de primeiro nível, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Paulo Renato Souza, Luis Carlos Bresser Pereira, entre outros, ligados ao PSDB.”Intelectual - Esse grupo, em especial, vai participar, a partir dos anos 1980, período de abertura política, ativamente da vida política, seja abertamente, seja como ideólogos de uma nova visão da sociedade. “O Cebrap tinha uma visão diversa da carreira acadêmica, considerada como um ‘modo de vida’, em oposição ao intelectual que não sabia negociar suas opiniões e suas propostas”, nota Ana Paula. O ideal desse conjunto de intelectuais era elaborar um projeto de sociedade e seguir pela via eleitoral, tendo sempre em vista a divisão da política em um “baixo clero”, desqualificado, e o “alto clero”, composto por intelectuais e universitários que concebem o saber como um estilo de viver, dispondo de todos os meios necessários para a elaboração e consecução de um projeto social de mundo. “A idéia reforçava a produção de uma ideologia fundamentada sobre uma concepção da ciência, vista como a única habilitada a falar do mundo social, já que produzida pelo único grupo legitimado.” Segundo a pesquisadora, tratava-se de colocar em prática algumas estratégias. “Na medida em que muitos pesquisadores são convidados para postos do governo federal, uma estratégia eficaz consiste em introduzir uma concepção do sistema de ensino superior como se ele fosse expressão do universo acadêmico; em outras palavras, tratava-se de traduzir esse programa efetivamente político como expressão da vontade acadêmica”, afirma Ana Paula. “O programa acadêmico de ensino superior foi elaborado, assim, no espaço político. A regra era pertencer a uma elite que se diferencia pela posse de um capital cultural específico. Esse capital se constitui também em capital social, instituído ao longo de uma trajetória de formação acadêmica e profissional, a qual se reú-ne à circulação internacional.” Para a autora, o que se verifica é a construção de um novo espaço de poder, onde os experts pertencem a um mercado internacional, impondo orientações políticas sobre o plano local, trabalhando ao lado de técnicos saídos do universo acadêmico e científico nacional. “O reconhecimento acadêmico tem um papel central nessa luta, já que ele confere uma legitimidade às ações políticas práticas.” Assim, o capital cosmopolita das elites engajadas na luta pela construção de um espaço internacional de conhecimento de Estado propiciaria que elas se afirmassem num papel-chave para a definição de modelos institucionais nacionais. “Investir no espaço internacional para reforçar suas posições no campo de poder nacional e, simultaneamente, fazer valer sua notoriedade nacional para se fazer entender na cena internacional. Isso porque as estratégias cosmopolitas nesses fenômenos têm se apresentado como servindo ao interesse nacional, enquanto, inversamente, as estratégias nacionais se reivindicam de valores universais. Afinal, são as idéias que esses ex-bolsistas trouxeram de suas viagens que nos permitem apreender um novo posicionamento do Brasil no cenário mundial”, nota Letícia.

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